“Não é RACISMO. É que a RAÇA dela…”

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Anunciaram a atriz que vai fazer a Estelar, dos Jovens Titans. Seu nome é Anna Diop, e pelo visto ela cometeu um erro nessa vida, que é ser negra.

Imagem da atriz Anna Diop olhando para o leitor

Anna Diop representando

Visual original da Estelar (StarFire) na década de 1980

Então a internet ficou maluca, porque não podem alterar a “raça” da personagem! Que absurdo, como assim ela não é mais branca?
Só que meio que ela nunca foi. Primeiro, porque a Estelar não é humana. Segundo, porque ela é laranja, mesmo.

E mais, mesmo que a personagem tenha traços caucasianos em obras mais recentes, originalmente os traços dela eram visivelmente negros. Mas é claro que isso sempre é esquecido.

Então, óbvio, a nerdosfera na internet ficou maluca, gerando aqueles debates totalmente aprofundados e bem embasados que só a própria internet pode nos proporcionar. Eu estou sendo irônico.

E a pior parte é: nós já vimos esse debate antes:

  • Quando o Homem-Aranha ia ser negro;
  • Quando o Capitão América foi negro;
  • Quando mudaram o Thor de um homem pra uma mulher;
  • Quando fizeram o novo GhostBusters com mulheres;
  • Quando um dos Lanterna Verde foi revelado gay;
  • Quando revelaram que a Tracer de Overwatch é lésbica;
  • Quando um dos protagonistas do novo Star Wars foi anunciado negro;
  • Quando escalaram uma atriz negra para interpretar a Hermione no teatro;

Enfim, nada de novo sob o sol. É tão recorrente, e repetitivo, que eu vou tentar separar quando características pessoais são importantes, e quando não são.

Pois é, ninguém aguenta mais

QUANDO RAÇA, GÊNERO, ORIENTAÇÃO SEXUAL É IMPORTANTE?

Óbvio: quando isso é fundamental para a construção do personagem.

Não faz sentido eu por um negro como nazista, ou como viking. Ora, claro, o primeiro foi um movimento fundamentalmente racista, e o segundo surge em países europeus com o pouca ou nenhuma influência africana.

A Xuxa cantando

O cabelo quase batendo na cara do menino é de um simbolismo…

Representar um escravo no Brasil colônia como uma pessoa branca. Porque, obviamente, só negros e índios eram escravizados. Fazer um personagem branco nessas condições beira o absurdo.

Colocar uma loira, branca, olhos claros, para representar um índio num programa de auditório também é absurdo, por que? Porque ela não representa, de forma alguma, aquele povo. Se mostrar defensora / amiga é maravilhoso. Representante? Não.

Colocar um vilão como homossexual é um problema? Depende. É posto que um dos motivos de ele ser “mau”, ou um dos seus “traços de loucura”, é sua opção sexual? Se sim, não deve ser feito. Senão, não tem problema.

Faz sentido representar um personagem com forte origem asiática como um americano padrão/ europeu? Não. “Mas se ele aprendeu artes marciais e voltou do Tibet?”. Então ok. Melhor ainda se ele reverenciar e respeitar as origens do seu conhecimento marcial. Porque veja, se for essencial o fato da técnica dele ser de origem asiática, é realmente tão importante que o personagem não o seja?

Não sei se ficou claro, mas essas representações “fora do padrão” só são muito relevantes se  é fundamental para o caráter do personagem. Logo….

QUANDO NÃO É IMPORTANTE?

Quando isso não é relevante para o personagem! DÃ! É claro!

O adolescente (negro) Miles Morales, dizendo

Miles Morales, que estreia em 2011 como novo Homem-Aranha

Qual o problema do Homem-Aranha ser negro? NENHUM! A base histórica dele não o obriga a ser caucasiano! Lembre da história dele: ”órfão criado pelos tios que lhe deram uma educação moral maravilhosa. Ganha poderes e não sabe o que fazer com eles, até que alguém próximo é vitimado, e ele percebe que deve usar essas habilidades para proteger as pessoas”. Note como nada de cor tá envolvido nisso. Nem opção sexual. Na verdade, nem de gênero (fora o nome), o Homem-Aranha poderia ser negro, indigena, asiático, gay, mulher ou mulher trans, sem grandes problemas! Ou melhor, o grande problema é a aceitação do público.

“Mas o Capitão América representa a América!”. E só tem branco nos Estados Unidos, por acaso? Se me dissessem que era estranho um Capitão Noruega negro, eu concordaria (apesar de confesso não conhecer bem a demografia daquele país). Mas… o America? Sério??

E quando o debate é sobre outros lugares que não o nosso querido planetinha? Por exemplo, pode ter negros em Westeros? A resposta é ainda mais simpĺes: Não sei. A gente não sabe como a evolução geológica, social, política, se deu naquele universo fantástico. Fora, óbvio, o que o autor nos dá. Mas e se isso não é deixado explícito em momento algum? Então, é claro, quer dizer que essa característica NÃO É IMPORTANTE para o personagem. O que quer dizer, então, que pode sim ter negros em Westeros, basta ter boa vontade.

“Mas veja, é que na era medieval…”

Ali não é nosso mundo.

Westeros não é a Europa.

Esse argumento não faz sentido.

E quando é alienígena? Pode ter ator negro?

Meu amigo, o estranho é a gente ter que usar ator humano!  A gente nem sabe qual formato alienígenas teriam, vocês nunca acharam estranho que na ficção científica todo mundo tem basicamente a forma humana, com algumas mudanças? Se os aliens existem (e devem existir mesmo, o universo é imenso), QUEM GARANTE que vão ter formas parecidas com as nossas? Veja nosso próprio planeta, se não fosse uma série de mudanças climáticas, geológicas, e catastróficas, nós nem seríamos a espécie dominante!

Will Smith como J em MIB, utilizando o aparelho de limpeza de memoria

Acho que a galera esquece algumas coisas…

O que nos leva, pelo outro lado, à questão, se ninguém aqui é alienígena, e estamos tratando de uma ficção sem grandes bases sociais , qual o grande problema na cor dessas personagens? Qual o problema de uma Gamora negra, de um Finn negro, de sei lá, até um anjo negro?

Pois é, esse mesmo que você já percebeu.

Nenhum.

Então, gente, é sério, A Estelar pode ser de qualquer jeito.

Eu queria muito que esse texto colocasse fim nessa discussão, mas eu sei que não é assim que funciona, e na prática ele é só uma uma madeirinha nessa grande fogueira que é “o debate sem embasamento sobre racismo na internet”.

Mas espero que esse texto ajude as pessoas na hora de emitir opiniões. Por favor, POR FAVOR, reflitam! Vejam se essa opinião faz ALGUM sentido. Ou se não se baseia apenas em seus desejos / frustrações / gostos pessoais.

Eu, como negro que sou, quero muito dedicar meu tempo para debater e lutar contra coisas muito mais sérias do que a cor da atriz que vai interpretar uma alienígena (que talvez nem apareça na tela, porque podem simplesmente pintar ela de laranja).

E acabou. Corta, Simone!